Área Metropolitana do Porto
Conferência “Caminho de Santiago – Via de Diversidade” marcou arranque do V Ciclo Gerson Moura em Lousada
O Centro de Interpretação do Românico, em Lousada, acolheu na noite de sexta-feira, 10 de abril, a conferência “Caminho de Santiago – Via de Diversidade” , evento que assinalou o arranque do V Ciclo de Conferências Gerson Moura, promovido pela Associação Vidas em Cena.
Dedicada ao fascínio e à paixão dos peregrinos e turistas pelo Caminho de Santiago, a conferência contou com três oradores locais: António Filipe Barbosa, presidente da Fundação Escolas Amor de Deus; António Augusto Silva, vereador da Educação da Câmara Municipal de Lousada; e Rosário Correia Machado, diretora da Rota do Românico.
Diversidade de motivações e experiências
António Filipe Barbosa começou por desconstruir a ideia de diversidade associada aos diferentes caminhos que partem de pontos distintos. “Para mim, a associação com a diversidade tem muito a ver com a forma como as pessoas fazem e vivem o caminho”, afirmou, destacando a diversidade de experiências que se vão vivendo ao longo da peregrinação e o encontro com pessoas com “expectativas e motivações diferentes”.
António Filipe Barbosa sublinhou que, ao contrário de outros lugares de peregrinação onde mais de 90% dos peregrinos o fazem por motivações estritamente religiosas, no Caminho de Santiago “as motivações são diferentes”. “O facto de caminharmos durante muito tempo para um lugar específico associado a uma grande tradição do cristianismo abre perspetivas de introspeção, de um caminho interior”, explicou.
O presidente da Fundação Escolas Amor de Deus destacou ainda o carácter transformador da experiência: “Quando nós nos abrimos ao caminho — ao encontro comigo, com o outro, com a natureza e com a transcendência — acabamos por fazer um caminho transformador.”
Barbosa revelou que a primeira vez que organizou o Caminho para alunos do Colégio Nossa Senhora de Lurdes, no Porto, só conseguiu convencer três alunos. “Acontece que os três alunos que fizeram o caminho acabaram por ter essa experiência transformadora. A motivação passou a ser feita por aqueles que já tinham feito o caminho com a mesma idade: ‘eu fui e vale a pena, tanto que vale a pena que quero repetir’”, contou, descrevendo um “efeito multiplicador” que fez crescer o número de participantes.
Superação e introspeção
António Augusto Silva partilhou uma perspetiva mais ligada ao desafio físico e à superação pessoal. “O meu olhar está mais perto do desafio da superação. A esmagadora maioria dos quilómetros que fiz nestes caminhos foi a correr”, revelou o vereador da Educação de Lousada.
António Augusto Silva descreveu momentos de peregrinação a solo: “Muitas centenas de quilómetros fiz sozinho. São momentos em que estamos connosco próprios e pensamos na nossa vida, nos problemas que nos rodeiam.” Sobre o regresso, confessou: “Cheguei a casa cansado fisicamente, mas se calhar rejuvenescido em termos da organização mental.”
Património e peregrinação como descoberta interior
Rosário Correia Machado, diretora da Rota do Românico e perita avaliadora do ICOMOS (Conselho Internacional de Monumentos e Sítios), braço científico da UNESCO, trouxe uma perspetiva dupla: profissional e pessoal.
Revelou ter sido convidada pela UNESCO para avaliar cinco novos itinerários do Caminho de Santiago para classificação como Património Mundial, incluindo o Caminho Primitivo, mais antigo que o Francês. “Foi uma honra muito grande, mas foi muito difícil. Avaliar um bem singular é uma coisa; avaliar cinco grandes itinerários é outra. Foi um desafio que me fez aprender muito”, afirmou.
Rosário Correia Machado sublinhou a dimensão espiritual da peregrinação, para além da religiosa: “O ato de peregrinar não tem só uma dimensão religiosa, pode ter, mas tem também uma dimensão espiritual e de encontro connosco próprios. A primeira peregrinação começa cá dentro.”
A diretora da Rota do Românico refletiu sobre o que une os peregrinos medievais do século XI aos de hoje: “Para além do chão que pisamos — que é o mesmo — os sentimentos: o sair de casa, a segurança, o risco, o despojar.” E acrescentou: “Fazer o caminho é descobrir o quanto nós vivemos e somos, descobrir a criação, o silêncio, a nossa própria criação.”
Questionada sobre a catarse à chegada, distinguiu as suas experiências: “Quando fui a Fátima a pé, lembro-me de chegar àquela praça e começar a chorar, a libertar tudo. Quando chego a Santiago tenho outras sensações. O mais importante é o que fiz pelo caminho, as sensações que fui tendo.”
Fecho da noite
Os três oradores concordaram que a noite foi “fabulosa” e permitiu mais do que uma abordagem teórica e académica do Caminho de Santiago, proporcionando um momento de “partilha de experiências diferentes, de vivências diferentes”, nas palavras de António Filipe Barbosa.
António Augusto Silva resumiu: “O caminho começa em nossa casa. Vivemos em Lousada, o caminho também começa aqui.” Rosário Machado concluiu: “Importa que cada um faça o seu caminho. Podemos dar o nosso testemunho, mas cada um tem de o viver.”
O conteúdo Conferência “Caminho de Santiago – Via de Diversidade” marcou arranque do V Ciclo Gerson Moura em Lousada aparece primeiro em Vale do Sousa TV.