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Opinião – Assim não vamos lá
O Governo liderado por Luís Montenegro enfrenta um início de legislatura particularmente exigente, quando o que o país mais precisava era de estabilidade política.
Essa estabilidade foi, aliás, um dos principais apelos deixados pelo Presidente da República, que defendeu uma legislatura capaz de cumprir os quatro anos de mandato e de responder aos desafios económicos e sociais que Portugal enfrenta.
Contudo, a realidade política tem-se revelado bem diferente. Apesar de dispor de uma maioria relativa, o executivo vê-se confrontado com uma Assembleia da República onde a negociação é permanente. Em várias matérias, o partido mais à direita tem condicionado a aprovação de iniciativas governamentais, impondo exigências e bloqueando propostas, o que fragiliza a ação do Governo e aumenta a incerteza quanto à duração da legislatura.
Ao mesmo tempo, o Partido Socialista procura reorganizar-se para voltar ao poder. As dificuldades do executivo acabam por alimentar essa estratégia, sobretudo perante a sucessão de polémicas que têm atingido vários membros do Governo e que dominam o espaço mediático.
Nos últimos meses, diferentes ministros têm estado sob forte escrutínio público. Entre eles contam-se a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, e, mais recentemente, o ministro da Administração Interna, Luís Neves, alvo de averiguações do Ministério Público relacionadas com alegadas irregularidades. Independentemente do desfecho desses processos, é inevitável que a sucessão de casos contribua para desgastar a imagem do Governo e para aumentar a desconfiança dos cidadãos.
Portugal atravessa um período em que deveria concentrar-se na competitividade da economia, na melhoria dos serviços públicos e na afirmação do seu papel na União Europeia. Num momento em que a Europa se prepara para novos desafios, incluindo o alargamento a países como a Moldávia e a Ucrânia, seria desejável que o país apresentasse estabilidade institucional e capacidade de decisão.
Em vez disso, continuamos demasiadas vezes presos a crises políticas, suspeições e confrontos partidários que desviam a atenção das verdadeiras prioridades nacionais. Enquanto os interesses políticos prevalecerem sobre o interesse do país, dificilmente Portugal deixará de ocupar uma posição modesta no contexto europeu.
Os portugueses esperam mais dos seus governantes e da oposição. Esperam responsabilidade, transparência e capacidade de diálogo. Porque, mantendo este clima de instabilidade permanente, a pergunta impõe-se: estaremos realmente a criar as condições para que Portugal avance? A julgar pelos acontecimentos dos últimos meses, a resposta não é animadora.