Área Metropolitana do Porto
Quando ninguém acreditava no vídeo online: a história pioneira da valsousa.tv
Rafael Ferreira
Professor na área das artes e tecnologias, licenciado em Educação, Comunicação Audiovisual e pós-graduado em Tecnologia Educativa.
Apaixonado por cinema, imagem, animação e artes.
Por Rafael Telmo S. Ferreira
Há datas que não pertencem apenas a quem as viveu. Pertencem também à memória coletiva de uma região. Setembro de 2005 e 3 de julho de 2006 são, para mim, duas dessas datas. A primeira marca o nascimento da ideia que viria a dar origem à valsousa.tv – Vale do Sousa TV. A segunda assinala a sua apresentação oficial online, numa plataforma própria de vídeos, pensada e desenvolvida para levar reportagens em vídeo às pessoas através da Internet.
Hoje, quando qualquer telemóvel grava, edita e publica vídeo em segundos, pode parecer difícil perceber a dimensão desse passo. Mas, no final de 2005 e no início de 2006, colocar vídeo na Internet era quase uma aventura técnica. A banda larga ainda não estava generalizada como hoje. Os servidores eram caros. O alojamento de vídeo era limitado. As plataformas gratuitas praticamente não existiam ou não davam resposta às necessidades de um projeto jornalístico regional. Ver um vídeo online exigia paciência, boa vontade e, muitas vezes, várias tentativas.
Foi nesse contexto que nasceu a valsousa.tv. Não nasceu de uma moda, porque a moda ainda não existia. Nasceu de uma convicção: a de que o Vale do Sousa merecia ter voz, imagem e presença no mundo digital. A televisão tradicional olhava para as regiões quase sempre quando havia tragédia, conflito ou exceção. Eu acreditava que também havia valor jornalístico no quotidiano, nas pessoas, nas escolas, nas associações, nas autarquias, na cultura, no desporto, nas empresas e nas histórias simples que constroem uma comunidade.
Na génese deste caminho esteve uma experiência desenvolvida na Escola Básica e Secundária Lousada Oeste, então E.B. 2/3 de Nevogilde. Com alunos, câmaras simples, muita curiosidade e quase nenhum recurso, começámos a experimentar aquilo que hoje parece banal: fazer pequenas reportagens em vídeo e colocá-las online. Esse projeto escolar foi uma verdadeira incubadora. Ali nasceram práticas, ideias e entusiasmos que mais tarde dariam corpo a um projeto muito mais amplo: uma televisão regional pensada de raiz para a Internet.
Quando a valsousa.tv foi apresentada oficialmente online, a 3 de julho de 2006, não se tratava apenas de abrir um site. Tratava-se de lançar um conceito. Um órgão de comunicação social online assente em reportagens vídeo, com uma plataforma própria, numa altura em que o vídeo na Internet ainda era rudimentar e pouco acessível. Aquilo que hoje as redes sociais, as plataformas de vídeo e os canais digitais tornaram comum era, nessa altura, um território quase por desbravar.
Muitas das soluções tiveram de ser criadas à medida. Era preciso pensar como comprimir os ficheiros, como os alojar, como os organizar, como os disponibilizar ao público, como garantir que uma reportagem pudesse ser vista por alguém em Paredes, Penafiel, Lousada, Felgueiras, Paços de Ferreira, Castelo de Paiva ou por um emigrante a milhares de quilómetros de distância. Hoje chama-se a isso vídeo on demand, arquivo digital, comunicação de proximidade em ambiente multiplataforma. Na altura, para nós, era simplesmente encontrar forma de fazer chegar a região às pessoas.
A valsousa.tv foi também uma experiência de teimosia. Teimosia boa. A de acreditar que a inovação não nasce apenas nos grandes centros urbanos, nem apenas nas grandes redações. Pode nascer numa escola, numa região, numa pequena equipa, numa ideia aparentemente improvável. Pode nascer quando alguém decide não esperar que o futuro chegue pronto e tenta construí-lo com as ferramentas disponíveis.
É verdade que, entretanto, o YouTube cresceu, as redes sociais mudaram tudo e o vídeo tornou-se dominante na comunicação digital. Mas convém recordar que, quando demos os primeiros passos, nada disso estava consolidado em Portugal. Não havia ainda a abundância de soluções que hoje existe. Não havia a facilidade técnica atual. Não havia manuais. Havia tentativa, erro, noites longas, limitações de servidores, ligações lentas, equipamentos modestos e uma enorme vontade de fazer diferente.
A história da valsousa.tv é, por isso, também a história de uma geração de transição. Uma geração que passou do analógico para o digital sem mapa, que aprendeu fazendo, que percebeu antes de tempo que a Internet não seria apenas um lugar para texto e fotografias, mas também para imagem em movimento, reportagem, memória e identidade regional.
Ao longo dos anos, esse caminho foi reconhecido por jornais, investigadores e por quem acompanhou a evolução das webtelevisões em Portugal. Mas o reconhecimento mais importante veio sempre das pessoas: daqueles que se viam representados, daqueles que encontravam online uma reportagem sobre a sua terra, daqueles que estavam longe e conseguiam matar saudades através de um vídeo do Vale do Sousa.
As novas gerações talvez não façam ideia das dificuldades técnicas, financeiras e humanas que existiam naquele tempo. E é natural que assim seja. Cada tempo tem as suas ferramentas e os seus desafios. Mas é importante preservar esta memória, não por nostalgia, mas por justiça. Porque antes de ser fácil publicar vídeo, houve quem tivesse de inventar caminhos. Antes de ser normal haver televisão online, houve quem acreditasse que uma região podia ter uma televisão própria na Internet.
A valsousa.tv nasceu dessa inquietação. Nasceu na escola, cresceu na região e projetou-se no mundo digital. Vinte anos depois, continuo a olhar para esse início com orgulho. Não apenas pelo pioneirismo tecnológico, mas pelo princípio que esteve sempre na base do projeto: dar voz e imagem ao território, aproximar pessoas, valorizar comunidades e mostrar que a inovação também pode nascer fora dos grandes centros.
Em 2005 e 2006, fazer vídeo na Internet era difícil. Fazer uma televisão regional online parecia quase impossível. Talvez por isso tenha valido tanto a pena.
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