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Custódio Costa: o escritor de Penafiel que explora a ética, a memória e os limites da tecnologia no Universo MANNIX
Natural de Penafiel e residente em Paredes, Custódio Costa, 57 anos, construiu uma obra literária que não se limita a antecipar futuros tecnológicos. Antes, parte da vida real – das comunidades que observou, dos ritmos humanos e das formas concretas de convivência – para questionar o impacto da inovação na identidade e na responsabilidade humana. “A minha relação com estes territórios não é apenas geográfica, é formativa”, afirma.
Autor de três publicações integradas no Universo MANNIX – um ciclo de ficção especulativa que explora a memória, a identidade e o conflito entre o desejo de correção total e os limites que mantêm a condição humana –, Custódio Costa escreve sobre tecnologia, ética e o impacto da inovação na vida humana.
A inquietação que precede a tecnologia
Questionado sobre o que o levou a interessar-se por estas questões, Custódio Costa responde: “A verdade é que o ponto de partida nunca foi a tecnologia, foi sempre a vida real. Cresci a observar pessoas, comunidades, relações próximas, onde cada decisão tinha um peso e cada erro tinha consequências assumidas.”
“Hoje vejo um movimento diferente. Vivemos rodeados de sistemas que nos prometem facilitar tudo, organizar tudo, até decidir por nós. E isso levanta uma questão que me acompanha: se deixamos de decidir, deixamos também de ser responsáveis?”
Um convite a olhar com mais atenção
Sobre o Universo MANNIX, o autor explica que “não é um futuro distante. É, muitas vezes, uma leitura mais nítida do presente. Algumas coisas que parecem ficção já estão a acontecer, de forma silenciosa: decisões automáticas, confiança em sistemas que parecem neutros, a ideia de que tudo pode ser corrigido.”
“O Universo MANNIX não é um aviso dramático, é um convite a olhar com mais atenção. Porque o risco não está nas máquinas, está na facilidade com que podemos deixar de questionar.”
O maior desafio da sociedade: não perder o que nos torna humanos
Para Custódio Costa, o maior desafio da sociedade atual é “não perder aquilo que nos torna humanos: a dúvida, a pausa, a capacidade de hesitar”. “Hoje tudo tende a ser rápido, direto, eficiente. Mas a vida das pessoas nunca funcionou assim. É feita de tentativas, de erros, de decisões difíceis. Se eliminarmos isso, tudo pode parecer mais simples, mas também mais vazio de responsabilidade. O problema não é a tecnologia evoluir, é nós deixarmos de sentir que temos um papel insubstituível nas decisões.”
O que espera que os leitores sintam?
“Gostava que o leitor ficasse um pouco inquieto, no bom sentido. Não desconfortável ao ponto de rejeitar, mas ao ponto de pensar. Não escrevo para dar respostas. Escrevo para que algumas perguntas não desapareçam.”
“Se alguém terminar um livro e, dias depois, ainda estiver a pensar numa ideia, numa dúvida, numa decisão… então já valeu a pena. Porque a leitura prolongou-se para a vida.”
Novos projetos: turismo religioso e micronarrativas
Custódio Costa revela que, para além do Universo MANNIX, tem vindo a desenvolver dois livros sobre turismo religioso nos concelhos de Paredes e Penafiel, cruzando património, vivência comunitária e leitura cultural do espaço. “São projetos que considero relevantes para a valorização do património imaterial destes territórios.”
Em 2025, participou em vários concursos de micronarrativas (em Paredes, Braga, Lamego e Lousada), tendo desses textos muito curtos nascido projetos mais amplos. A partir dessas ideias desenvolveu três livros: “O Coração e o Caminho” , “O Jardim de Jasmim” e “O Imperativo Categórico” . Embora tenham sido escritos em 2025, só agora será possível avançar para a sua publicação. São obras que não pertencem diretamente ao Universo MANNIX, mas dialogam com as mesmas inquietações: escolha, limite, memória e responsabilidade.
“Neste momento estou mais interessado em dar tempo e consistência a estes projetos do que em acelerar novas continuidades, deixando que cada livro encontre o seu próprio ritmo e o seu lugar.”
Fotografia: DR
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