Área Metropolitana do Porto
Beata Mafalda Sanches
Joaquim Luís Costa
Licenciado em Ciências Históricas, mestre e doutor em Ciência da Informação. Historiador.
Tradicionalmente associada a Arouca, Mafalda Sanches também teve forte presença nos vales do Tâmega e do Sousa.
Mafalda Sanches nasceu por volta de 1195, sendo filha de D. Sancho I e de D. Dulce de Aragão, os segundos reis de Portugal. Era, assim, neta de D. Afonso Henriques e de D.ª Mafalda de Saboia.
Segundo rezam as lendas, foi sempre sua intenção seguir a vida religiosa. Todavia, este desejo foi interrompido pelo seu irmão, o rei D. Afonso II, que na procura de uma aliança estratégica com o reino de Castela, impôs o seu casamento com Henrique I, seu primo. Esta união aconteceu em agosto de 1215, em Medina del Campo (Palência), mas pouco tempo durou. Como havia uma grande diferença de idades – ela tinha cerca de 19 anos e Henrique era uma criança, com cerca de 12 anos –, há a versão que sugere que Henrique morreu ao cair do cavalo, enquanto brincava. Como nunca foi bem aceite em Castela, apesar de ser rainha, Mafalda viu nesta morte um excelente motivo para regressar a Portugal. Assim o fez, rumando a Arouca.
Uma das ações em que se empenhou com toda a dedicação nesta sua vida nova foi promover a mudança de hábito do Mosteiro de Arouca, passando-o de beneditino para a Ordem de Cister e depois a transformá-lo na casa feminina cisterciense mais importante do reino.
Neste mosteiro, Mafalda seguiu uma rotina que procurava a relação com divino através dos preceitos cistercienses, como o silêncio, a oração e os estudos. Todavia, nunca professou, logo não viveu em clausura. Sempre que o desejava, ausentava-se do mosteiro por motivos religiosos e de caridade. Era comum deslocar-se à Sé do Porto para rezar perante a imagem de Nossa Senhora da Silva. Era igualmente comum que nestas viagens passasse por terras do Tâmega e do Sousa, onde aproveitava para apoiar casas monásticas, como a de Tuías, no Marco de Canaveses, e a de Paço de Sousa, em Penafiel, e para fazer obras pias, que, na altura, significava mandar construir, à sua custa, pontes para permitir a ligação de povos e (re)construir igrejas para fortalecer a fé cristã. As igrejas de Abragão, de Boelhe e de Cabeça Santa, todas em Penafiel, são obras tradicionalmente atribuídas a Mafalda Sanches.
Mafalda Sanches morreu a 1 de maio de 1256 no mosteiro beneditino de Rio Tinto, ou no de Tuías, embora se considere o primeiro local como o mais provável. Posteriormente, foram construídos monumentos, como o Memorial da Ermida, em Penafiel, para lembrar a passagem do seu féretro de Rio Tinto para Arouca, onde se encontra sepultada.
Perante uma vida dedicada a Deus e repleta de benfeitorias ao próximo, o seu túmulo foi aberto, por curiosidade, em 1616 e em 1617, e o seu corpo foi encontrado… incorrupto! Estavam, assim, criadas as condições para a sua subida aos altares da Igreja com o título de Beata, a 27 de junho de 1793, embora popularmente fosse intitulada de Santa Mafalda.
Como neste mês se comemora o 770.º Aniversário da sua morte, seria interessante lermos um livro e/ou visitar património ligado a esta figura histórica e religiosa, que embora sepultada em Arouca está umbilicalmente associada à história medieval dos vales do Tâmega e do Sousa.
Com este propósito, sugiro dois livros, um para adultos – Arouca: uma terra, um mosteiro, uma santa – e um infantojuvenil – Mafalda e a Luz, uma história românica –, para termos diferentes visões da santa; e recomendo um percurso turístico-cultural a iniciar na Sé do Porto, depois a passar pelo Memorial da Ermida, pelas igrejas de Abragão, Boelhe e de Cabeça Santa e a terminar no Mosteiro de Arouca.
Boas leituras e boa viagem!
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