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Celebrar a Pascoa à 2ª-feira. Será que a tradição se vai manter?

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Celebrar a Páscoa à segunda-feira — hábito antigo, quase sussurro de outros tempos — levanta hoje mais perguntas do que certezas. Como se o próprio calendário hesitasse, também nós nos interrogamos: será a tradição ainda caminho, ou apenas memória que se esvai?

Diz-se, com alguma melancolia, que a tradição já não é o que era. Mas talvez nunca tenha sido coisa fixa; talvez seja, antes, um fio invisível que se estica entre gerações, ora mais tenso, ora quase a romper. No Alentejo, onde o tempo costuma andar mais devagar, resiste ainda esta singularidade: a Páscoa vive-se na segunda-feira, como se o domingo fosse apenas promessa e o verdadeiro encontro ficasse guardado para depois.

Em Arronches, a herdade do Baldio permanece como cenário desse rito. Há ali qualquer coisa de eterno: a ondulação dos campos, o silêncio que só a natureza sabe compor, e o Rio Caia — ora ausente, ora abundante — a lembrar que tudo depende de ciclos maiores do que nós. Quando a Primavera é generosa, tudo ganha uma luz quase irreal: o verde parece mais vivo, os sons mais nítidos, e até o ar carrega uma espécie de esperança tranquila.

Nos últimos anos, os tempos modernos trouxeram mudanças. Junto à Ponte do Crato, surgiram mesas, grelhadores (construídos pelo Município), comodidades que procuram aproximar a tradição das exigências de hoje. Mas, paradoxalmente, esse espaço, preparado para acolher, encontrou-se este ano vazio. Faltaram as vozes das crianças, aquele chilrear humano que se confundia com o dos pássaros, como se a alegria tivesse aprendido novos destinos. Porque o mundo mudou — e continua a mudar. As viagens tornaram-se mais acessíveis, os horizontes mais largos, e muitos aproveitam a Páscoa para partir, ainda que por poucos dias. O longe passou a competir com o perto; o novo, com o herdado.

E, no entanto, no Baldio, a tradição não desapareceu — apenas se fez mais discreta. Menos gente é certo, mas ainda ali. Famílias que persistem, gestos repetidos com um cuidado talvez maior: o lixo guardado, o espaço respeitado… embora nem sempre, pois ainda há sinais de esquecimento, fogueiras deixadas acesas, marcas de uma presença que não soube despedir-se.

A vigilância passa — como passou a GNR — mas o verdadeiro guardião da tradição é outro: é a vontade de continuar a tradição.

Talvez seja essa a resposta. A tradição não se mede pelo número, mas pela intenção. Enquanto houver quem leve os filhos pela mão até ao Baldio, quem lhes conte que ali se celebrou a Páscoa “como sempre”, quem acenda o fogo com respeito e o apague com consciência — então, mesmo mais leve, mais rarefeita, ela sobreviverá.

Não como era, talvez. Mas ainda como é possível.

Redacção|Fotos:Notícias de Arronches e Dulge Bigares



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